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SorrisoIncógnito

Todo o sorriso é apaixonante devido ao incógnito que o ofusca! SORRIR_um estado de espírito...

23
Mar20

A minha rua é melhor que a tua* #10

Maria

Ouvi algures que estamos numa época em que "tu escolhes ser o vizinho que quiseres".

E automaticamente lembrei-me que nas grandes cidades, nos grandes prédios de vários apartamentos, ou mesmo em prédios mais pequenos as pessoas não se conhecem. Às vezes não sabem quem é o vizinho da frente e muito menos alguma vez falaram com o vizinho do lado. Alguns nunca se cumprimentam e muitas vezes nem ajudam a segurar a porta ou a fazer o elevador esperar porque não lhes está no sangue, acho eu.

Eu nunca vivi assim. Sou da aldeia. Todos se conhecem (acham que sabem o que é e o que não é). Grande parte cumprimenta-se. E muitos são os que estão lá para ajudar. Sem ser por força do intrometer-se onde não é chamado ou pela cusquice.

Para quem me segue não é segredo que A minha rua é melhor que a tua e que tenho os melhores vizinhos do mundo. E em tempo de quarentena é ver-nos todos os dias à varanda a perguntar está tudo bem? Sim, aqui é assim que nos tratamos. Que nos vemos uns aos outros. Que ansiamos por estarmos todos lá fora na rua sentados na conversa. Ora no meu passeio, ora no muro da casa da vizinha, ora no passeio da casa de outro. 

Na casa ao lado moram os meus compadres e por isso vejo a minha afilhada todos os dias, e já não sei bem o que lhe dizer assim que diz que quer que eu vá lá, ou que quer vir cá. Que quer o meu pai ou a minha Mãe e que ainda me diz "anda mainha busca-me que tou pesa".

Em tempo de quarentena isto alivia. Falar à distância de uma varanda. Saber deles. Aliviar o estar cá dentro nem que seja só mesmo para saber que graças a deus continua tudo bem. 

Há sempre um bom dia, boa tarde ou até boa noite. Um sorriso e um bater o pé com um rais'que parta isto. Mas aqui juntos, ainda que separados pelas casas, as varandas suportam-nos.

E desse lado, conhecem o vizinho da frente, ou quando estão à varanda nem sequer cumprimentam o do lado?

E Eu sei que muitos não sabem sequer o que isto é. Mas é isto que me faz gostar tanto de viver aqui. A minha rua é melhor que a tua. É isso.

IMG_20200323_222413.jpg

 

* [e tenho o melhor lugar para tele-trabalho a ver o melhor pôr do sol]

13
Fev19

A minha rua é melhor que a tua #8

Maria

Está um dia incrível. A puxar um bom dia de Primavera em pleno Inverno. Mesmo que hoje tenha saído de casa pela manhã com os termómetros a marcarem quatro míseros graus, agora à hora de almoço está um quentinho bem bom e um sol (que faz mal) que é um desperdício não aproveitar.

Fui por isso almoçar a casa e aproveitar as minhas duas horas de almoço. Acabei de almoçar e vim sentar-me ao fundo das escadas, ao sol. Os meus pais também. Apareceu logo a minha afilhada com a mãe. Apareceu também uma outra vizinha que nos ouviu falar e ali se sentou para dar duas de letra. Apareceu de seguida mais outra (minha ex sogra por acaso) que aproveitou para nos trazer uma abóbora do seu quintal. E mais dois dedos de conversa.

Eu podia ter aproveitado o fim da hora de almoço para passar no café ou na padaria para um cafezito e coisa e tal. Mas eu gosto daquela convivência. Eu gosto dos meus vizinhos. Eu gosto do dar e receber que ali se consegue. Eu gosto das conversas sem serem intrometidos. Eu gosto das ajudas que somos todos uns para os outros. Eu gosto de lhes perguntar se está tudo bem, porque continuam a ser os primeiros a aparecer se estou doente.

E por isso me custou ainda mais, quando me levantei peguei na mala e soltei um até logo que tenho que ir trabalhar.

Eu sei que muitos não sabem sequer o que isto é. Mas é isto que me faz gostar tanto de viver ali. A minha rua é melhor que a tua. É isso.

25
Set18

A minha rua é melhor que a tua #7

Maria

Lembram-se do meu vizinho que a família não ligava nenhuma e que era ajudado por todos lá na rua? Devido à doença, abandonou a casa onde estava, neste momento está num hospital a ter cuidados continuados. Infelizmente nunca mais o vi, mas vamos sabendo notícias, sei que já tem familiares que o visitam, sei que não fala desde o seu internamento no IPO e poucas visitas pode receber porque fica muito ansioso por não poder falar e ainda é pior. Infelizmente. Mas lembro-me imensas vezes dele e sei, que se ali continuasse todos os vizinhos o continuavam a ajudar...

Como disse ele saiu da casa onde estava e foi para lá viver um casal idoso. Deram-se as boas vindas e nunca houve muita conversa, a senhora lá anda na sua vida e o senhor é acamado. Só há uns dias após comprar uma máquina de lavar roupa pediu-me se lá podia ir explicar como a coisa funcionava. E eu lá fui. Agradeceu-me de cada vez que lhe expliquei alguma coisa.

Na sexta-feira à noite estava a chegar a casa e ouvi uns gritos. Esperei para ver de onde vinham e ouvia alguém a chorar desesperadamente. Estava eu ainda na rua quando a minha mãe vem cá fora também com o barulho. Apercebemos-nos que era da casa dessa vizinha. Corremos até lá, encontramos outra vizinha também a lá chegar e... a senhora estava desesperada. Tinha acabado de receber a notícia por telefone que o marido falecera no hospital para onde tinha seguido durante a tarde.

A senhora na casa dos oitenta anos por volta da meia noite e meia recebeu aquela notícia sozinha em casa. Já tinha chamado a filha mais próxima. E ficamos ali a tentar acalmar aquilo que nestas alturas não se acalma. O coração de quem ama. Chegou outra filha e estávamos nós, as vizinhas que se aperceberam ali com o sofrimento daquela mulher.

Já mais tarde, quando começaram a chegar familiares, retirei-me para fora de casa e ali à porta uma das filhas agradecia o termos ido logo lá. Vezes sem conta agradeceu.

E Eu só pensava no quanto os vizinhos nos podem ser.

Não lhes retiramos a dor. Mas não assobiamos para o ar enquanto o "vizinho do lado" esmorece aos poucos.

Eu já disse que a minha rua é melhor que a tua? A minha rua é melhor que a tua. É isso.

12
Dez16

A minha rua é melhor que a tua #4

Maria

É sempre um orgulho falar da minha rua. Porque realmente gosto da rua que me acolhe há tantos anos. Mais, as pessoas que lá vivem. Já aqui falei imensas vezes dos meus vizinhos. E tão só por isso e muito mais, continuo a dizer que a minha rua é melhor que a vossa.

Continuo a ter o vizinho que a família não liga e que continua a ser ajudado por todos lá da rua. E é dele que hoje venho falar, mais uma vez. Ele lá continua na sua vidinha. Sozinho. Pelo que sei sem contacto com familiares e com contacto com os vizinhos. Sempre o mesmo, extremamente bem educado, sempre com um sorriso e uma mão levantada a cumprimentar. Continua a gostar de beber o seu copo e não condeno, muitas vezes acredito que será mesmo a sua única companhia. Nós vizinhos, vamos fazendo o que se pode.

Ontem, combinado anteriormente, foi a minha mãe que lhe deu o almoço. Fez-se assado e partilhou-se com ele. Nesta semana que é particularmente difícil. Soube há poucos dias que está doente...e esta semana recebeu a informação que será agora internado no IPO. Partilhou com os vizinhos que mais o ajudam a notícia e todos ficamos naturalmente "tocados" com a notícia. Principalmente nesta época de família, coisa que lhe falta. Imagino que as conversas e os desabafos que tanto se precisa o "sufoquem".

Ele agradece vezes sem conta o que se partilha com ele e acredito que no fundo seja isso que lhe consola o coração. Nunca sabemos ao olhar para uma pessoa a vida que carrega. E eu espero que lhe esteja reservado o melhor caminho. Porque merece. E que consiga encontrar sempre "vizinhos" que o ajudem.

Eu já disse que a minha rua é melhor que a tua? A minha rua é melhor que a tua. É isso.

16
Dez15

Eu, Dezembro e a Rua de Santa Catarina.

Maria

Assim como quase tradição, no dia 8 de Dezembro sempre vou passear pela Rua Santa Catarina no Porto. Quase já nem se pensa noutra coisa. Está marcado sempre. Momentos em família. Vou ver as lojas, corremos tudo. Por muito tempo, aproveitar o dia e deliciarmo-nos com a chegada da noite para ver as iluminações. Vimos de lá de coração cheio.

Este ano não seria diferente. Isto se o meu carro não tivesse um piripaico e quisesse passar umas noites no hotel (oficina) nesse dia. Grande merd@ pensei. Por mil trezentas e duas coisas incluindo ter ficado sem carro no dia oito, este ano quebramos a tradição. Fiquei mesmo triste. Adiante.

Este sábado foi dia de tentar remediar a situação e rumar à Rua Santa Catarina para marcar a época. Infelizmente porque a correria era muita, havia mais coisas marcadas não consegui ficar para o fim do dia para descer depois até à Avenida dos Aliados para ir ver as bonitas iluminações. No entanto aquele pouco tempo que ali estivemos sentimos o espírito. É Natal, exclamei ao sair do Via Catarina. Pais Natal na rua. As castanhas assadas e aquele cheiro que nos acompanha. O sorriso das pessoas. A azáfama. A confusão não era demais. Era aquela necessária para sentirmos que estamos numa das épocas mais bonitas do ano mas também cada vez mais materialista. Os sacos, as compras, os presentes, os embrulhos… os saldos (sim cada vez mais começam mais cedo). As músicas. Os estrangeiros (tantos!). O frio, os casacos, os gorros. Tudo encapotado mas senti os sorrisos das pessoas. Os portuenses a falarem alto com aquele sotaque que adoro. A correria. A sério que vale a pena. Lá sente-se o espírito. E não fui aos Aliados mas ainda quero lá passar. Sentir o Porto. Fazer brilhar os olhos. Recordar. E ter os meus comigo. Sempre. Aquele amor maior. Natal é, também, isto.

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